Livro_Pensando_a_vida

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Tanque de Betesda, benção ou maldição?

Dizia-se que um anjo vinha do céu uma vez por ano, movia as águas e o primeiro doente que mergulhasse, seria curado. Multidões se formaram, todos aguardando um milagre. A administração municipal de Jerusalém resolveu construir um pavilhão para abrigar tantos enfermos. Edificaram um prédio imponente, com um alpendre de cinco pavimentos. Devido a essa enorme expectativa, sempre adiada, o lugar foi denominado, ironicamente, de Betesda que significa "casa de misericórdia". Conta-se que muitas famílias, para se verem livres dos doentes, os abandonavam nos alpendres do tanque de Betesda.

Os ricos compravam escravos para os ajudarem a entrar nas águas. Alguns alugavam as bordas mais próximas, que possibilitavam melhor acesso, todos queriam o seu milagre e, lógico, os mais abastados, sagazes e famosos, se sentiam perto da graça. Os pobres e os doentes graves, os destrambelhados, acabavam no fundão do tanque, completamente abandonados, alguns jaziam por anos e anos em total mendicância, em estado era deplorável. Escaras cheiravam mal e piolhos podiam ser vistos a olho nu nos cabelos de certas mulheres. As pessoas afirmavam que o anjo descia até o tanque anualmente, mas ninguém sabia a data exata, isso aumentava o desespero das pessoas que ali aguardavam seu "dia". Para piorar a situação, levantavam-se (falsos) profetas prevendo o dia preciso em que o anjo visitaria o local.


É neste contexto que Jesus encontra este homem, que era conhecido pelo tempo que se encontrava naquele local, trinta e oito anos, não é falado o seu nome, provavelmente era pobre, era conhecido pela tragédia da sua vida até mesmo sua identidade se havia perdido, bem, vivia em uma realidade de abandono.


Jesus foi aos lugares que ninguém da sua época iria, ele se importava com as pessoas, aquele homem, até Jesus chegar, não tinha ninguém que se importasse com ele, mas Ele mostrou que Deus não havia se esquecido dele. Ele aproximou-se do paralítico e perguntou: "Você quer ser curado"? O paralítico, por sua vez, respondeu dentro da lógica que aprendera, sua mente estava conformada com aquela realidade. A cura não era mais o seu alvo, mas sim alguém para colocá-lo dentro do poço, a expectativa frustrada por trinta e oito anos o aprisionou, aquele sistema havia condicionado a sua mente, o 'mover das águas' era a sua única esperança.


De um só fôlego, Jesus ordenou: "Levante-se, pegue a sua maca e ande". A passagem de Jesus pelo tanque de Betesda aconteceu num sábado prioritariamente o dia sagrado para os judeus, eles se importavam muito com a religião, seus dias sagrados, ritos, festas, muito mais do que com as pessoas. O problema maior não foi a cura no sábado, mas o fato de tomar o leito e o carregar, que coisa triste, um homem a trinta e oito anos preso a uma enfermidade que o impedia de viver, e os religiosos querendo saber quem o havia curado, não para se alegrar, mas sim para saber do leito que o ele carregava, pois era sábado. Os religiosos sobrevivem da ilusão e não têm escrúpulos de gerar falsas expectativas em pessoas fragilizadas.


A mensagem deixada por Jesus: "Os milagres que procedem de Deus não premiam quem souber se mostrar hábil, santo ou rico – Deus não faz acepção de pessoas, nem busca transformar os espaços religiosos numa corrida desenfreada pela bênção onde só os mais fortes sobrevivem". O tanque de Betesda é metáfora que lembra a humanidade que Deus olha graciosamente para os desfavorecido. Representa também um sistema sócio/religioso que mantém pessoas aprisionadas as suas desgraças, em um ciclo, esperando que alguma coisa vai acontecer. Muitas igrejas de hoje fazem uso do sistema demoníaco do tanque de Betesda, Jesus não moveu as águas, ou seja, não manteve de pé a 'lenda'. O Cristianismo deve, portanto, assumir o compromisso de continuar visitando os mais pobres, que muitas vezes estão bem pertinho de nós, só que não os vemos. Precisamos olhar com mais atenção para os 'tanques de Betesda' ao nosso redor. Precisamos anunciar aos mais miseráveis a melhor de todas as noticias, que não é que um anjo vai mover as águas um dia, mas Deus não se esqueceu deles.


Pr. JM